Brincar faz a vida ganhar sentido

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Crianças brincam o tempo inteiro, mesmo nos momentos em que tudo que queremos é que sejam práticas, rápidas e diretas. Por vezes, reúno todas as minhas forças para não enlouquecer quando, depois de um dia cheio, vou dar um banho nos meus filhos e eles inventam que estão em outro planeta e o sabonete é uma arma alienígena. Eu, torcendo que o dia acabe bem. Que o dia acabe. Eles, aproveitando cada milésimo de segundo da vida. Tenho aprendido que, quando a brincadeira me irrita demais, é sinal de que tenho me divertido pouco, gargalhado pouco, aproveitado pouco. Crianças são mestres em aproveitar a vida e, por vezes, a gente se chateia quando percebe que o que nos falta transborda no outro. 

Mas a brincadeira vai além do aproveitar a vida. Ela serve para entender a vida, para dar sentido ao que parece sem sentido. Ela serve para elaborar a dor, a perda, o medo. Pra fortalecer a própria imagem, para acreditar na própria força. A brincadeira auxilia na construção da subjetividade. A família recebeu a notícia que vovó está doente? Ela elabora brincando de ter super poderes, de vencer monstros tenebrosos. A mamãe vai viajar e passar alguns dias fora? Ela brinca que pode se teletransportar, que viaja como uma fada ou que tem a vassoura super poderosa do Harry Potter. Na brincadeira ela descobre que dá conta do medo, da angústia, da ansiedade, da perda. Brincar amplia os horizontes, alarga as perspectivas. Lembro quando surgiram os primeiros casos de coronavírus e crianças que conheço inventaram o pega-pega coronavírus. Nele, quem fosse tocado pelo vírus, tossia, deitava no chão e depois levantava novamente. Consegue ter noção do quanto uma brincadeira, aparentemente boba, ajudava a entender a realidade e criar formas de lidar com ela? 

Gosto de lembrar aos pais que crianças são um passe livre para redescobrirmos o poder da diversão. Jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, pega-pega, esconde-esconde., Correr com o carrinho do mercado, fazer maquiagem engraçada, voltar a acreditar que podemos ser mágicos, astronautas, inventores. Crianças nos fazem voltar a acreditar na beleza da vida.

Talvez já não saibamos brincar. Talvez a gente tenha esquecido como imaginar os voos super fantásticos do boneco ou a ultra velocidade do jato, porque eles parecem só um amontoado de plástico. Mas esse não saber não pode nos impedir de responder, com o coração aberto, a pergunta mais importante que as nossas crianças nos fazem. Você não precisa saber, a mestra é ela. Da próxima vez que os olhos brilhantes e uma voz animada te perguntarem: “Quer brincar comigo?”, apenas confie. E diga sim.  Talvez esse momento te salve e te ajude a recuperar o brilho nos olhos. Porque brincar faz a vida ficar melhor. 

Quanto mais brincadeira, melhor.

Elisama Santos

Elisama Santos é psicanalista, escritora, especialista em inteligência emocional, educadora parental e consultora e ativista da Comunicação Não Violenta na Educação.

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